Há três anos, o cargo não existia em lugar nenhum. Hoje ele aparece no organograma de empresas como Notion, Ramp e Anthropic, e virou uma das vagas que mais crescem no mercado de tecnologia. Um levantamento da Bloomberry com mil anúncios de emprego apontou alta de 205% nas vagas de GTM Engineer entre 2024 e 2025. No Brasil, o termo ainda é praticamente desconhecido fora de um punhado de empresas.
É uma janela curta e uma oportunidade grande. Enquanto a maioria das empresas brasileiras ainda resolve aquisição de cliente contratando mais gente, uma minoria começou a resolver o mesmo problema construindo sistema.
GTM é a sigla de go-to-market, o caminho que uma empresa percorre para colocar o produto na frente do cliente e transformar isso em receita. O GTM Engineer é quem constrói esse caminho como sistema, não como esforço manual.
Na prática, ele não faz prospecção: ele monta a máquina que prospecta. Não preenche CRM: constrói a integração que preenche sozinho. Não escreve mil e-mails: cria o fluxo que gera abordagem personalizada em escala, a partir de dados enriquecidos automaticamente. A empresa de consultoria Clay, que cunhou o termo em 2023, descreveu o perfil como uma mistura de vendedor, pré-vendedor e engenheiro.
É a diferença entre contratar cinco pessoas para fazer a mesma tarefa e construir uma estrutura que faz aquilo rodando sozinha, todos os dias, sem alguém apertando botão.
A confusão é comum. RevOps organiza processo e cuida da operação de receita. Growth roda experimento. TI mantém a infraestrutura. O GTM Engineer atravessa os três: ele desenha a arquitetura de aquisição de ponta a ponta e escreve a lógica que faz aquilo funcionar.
O que criou o cargo foi a tecnologia. Ferramentas de automação como o n8n, plataformas de enriquecimento de dados e modelos de inteligência artificial capazes de ler, classificar e escrever texto tornaram possível que uma pessoa entregue o que antes exigia um time inteiro. O cargo não nasceu de uma moda de gestão: nasceu porque a ferramenta ficou boa o suficiente.
Engenheiro de software e fundador da Dasckup, Miguel Dendasck é um dos nomes que vêm trazendo essa lógica para empresas brasileiras. A trajetória dele encaixa quase exatamente na descrição da função: formação técnica em engenharia de software, trabalho diário com automação, inteligência artificial e integração de sistemas, e foco em processo comercial e redução de trabalho recorrente.
Para ele, o cargo é menos sobre a sigla e mais sobre uma mudança de mentalidade. “A tecnologia hoje é a parte fácil”, costuma dizer. O trabalho difícil é enxergar a aquisição de cliente como um sistema que pode ser projetado, e não como uma sequência de esforços isolados que dependem de alguém lembrar de fazer.
Dendasck defende que o raciocínio de GTM Engineering não é privilégio de startup de tecnologia. Uma clínica que perde paciente porque ninguém deu retorno, um comércio que não acompanha quem pediu orçamento, uma prestadora de serviço que reencontra o mesmo lead três meses depois sem histórico nenhum: são todos problemas de sistema de aquisição mal construído, não de time desmotivado.
O ponto de partida costuma ser o mesmo em qualquer empresa: os dados do cliente estão espalhados. Uma parte no WhatsApp, outra numa planilha de controle, outra na cabeça de um vendedor. Enquanto isso for verdade, nenhuma automação séria se sustenta.
Resolvido isso, o trabalho vira construção. Captura de lead que entra direto no sistema certo, enriquecimento automático dos dados da empresa que pediu orçamento, distribuição do contato para a pessoa certa em segundos, acompanhamento automático de quem sumiu, e análise que mostra onde o funil vaza de verdade. Nada disso é sofisticado. É só coisa que ninguém montou ainda.
Existe um custo silencioso em ignorar essa mudança. Duas empresas do mesmo tamanho, com o mesmo produto e o mesmo preço, entregam resultados diferentes quando uma delas trata aquisição como sistema e a outra depende de esforço humano repetido. A diferença não aparece no primeiro mês. Aparece no acumulado do ano.
Como o cargo é novo e caro no exterior, com salários que passam de seis dígitos em dólar, boa parte das empresas brasileiras não vai contratar um GTM Engineer interno tão cedo. O caminho mais realista aqui é ter quem construa o sistema e entregue a operação funcionando, sem depender de estruturar um time novo.
Para entender o contexto mais amplo, vale ler sobre consultoria e implantação de IA, sobre o que faz um especialista em inteligência artificial e sobre automação com IA na prática. O perfil de Miguel Dendasck está disponível aqui.
O resumo do cargo cabe em uma frase: em vez de trabalhar dentro do processo de vendas, o GTM Engineer trabalha no processo de vendas. Ele constrói, mede, ajusta e deixa rodando. E, quando o sistema está de pé, a empresa para de depender de heroísmo comercial para bater meta.
Essa é a mudança que já aconteceu lá fora e está começando a acontecer aqui. Quem entender primeiro vai ter alguns anos de vantagem sobre quem ainda está contratando gente para fazer o que uma automação faz melhor.
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