A IA está fazendo empresas cancelarem software: o que você pode cortar e o que não deve

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Começou a circular no noticiário de tecnologia uma ideia que vai chegar na sua mesa em algum momento: empresas estão reconsiderando assinaturas de software porque a IA barateou tanto a criação de aplicações sob medida que comprar pronto deixou de ser óbvio.

A leitura é correta, mas incompleta do jeito que costuma ser contada. E a versão incompleta é perigosa, porque leva o empresário a cancelar a coisa errada.

Vou dividir isso em três perguntas práticas: o que mudou de verdade, onde você está perdendo dinheiro hoje mesmo sem precisar construir nada, e o que nunca deve ser substituído.

O que mudou de verdade

Ferramentas de programação com IA reduziram o custo e o tempo de criar aplicações específicas. Isso muda a equação entre comprar software de prateleira e desenvolver internamente, especialmente nas categorias em que a diferenciação tecnológica é baixa e a necessidade é fácil de replicar.

A velocidade com que esse mercado se moveu dá a dimensão: a Lovable, plataforma que permite criar aplicações descrevendo o que se quer em linguagem natural, saiu do zero para cerca de US$ 400 milhões de receita recorrente em pouco mais de um ano, sendo avaliada em US$ 9 bilhões.

Mas repare no que isso não significa. Não é o fim do SaaS. O que está acontecendo é uma reprecificação: software que só organizava informação básica perdeu valor, e software que executa trabalho passou a valer mais.

O dinheiro que já está escorrendo

Antes de pensar em construir qualquer coisa, olhe para o que você já paga. É aqui que está o retorno imediato, sem risco nenhum.

Segundo o Gartner, grandes corporações usam em média mais de 400 aplicações SaaS, boa parte subutilizada, redundante e fora do controle do TI. Levantamentos de gestão de gastos com software apontam que cerca de 47% das licenças contratadas não são usadas ativamente e que aproximadamente 85% do gasto com SaaS está fora do controle da área de tecnologia, sendo que ferramentas contratadas direto pelas áreas respondem por perto de 38% do total.

Traduzindo para uma empresa de médio porte brasileira: é quase certo que você paga por licença de gente que saiu, por duas ferramentas que fazem a mesma coisa em departamentos diferentes, e por algo que alguém assinou em 2023 para um projeto que não existe mais.

Isso não exige IA nenhuma para resolver. Exige uma hora e o extrato do cartão.

Calculadora sobre a mesa usada para somar o custo mensal das assinaturas de software
O retorno mais rápido não está em construir nada. Está em parar de pagar pelo que ninguém usa.

A auditoria de uma hora

Faça isso neste domingo e leve o resultado para a reunião de segunda.

Um. Puxe doze meses do extrato do cartão corporativo e da conta, e separe toda cobrança recorrente de software. Inclua as em dólar, que são as que mais escapam.

Dois. Monte uma lista com quatro colunas: ferramenta, valor mensal, quantas licenças e quem é o responsável.

Três. Para cada linha, responda: quantas licenças estão de fato em uso hoje, existe outra ferramenta na empresa que faz isso, e o que acontece se eu cancelar na segunda-feira.

Quatro. Some a coluna do valor mensal e multiplique por doze. Esse número costuma assustar, e é ele que justifica tudo que vem depois.

A IA ajuda aqui, aliás, e de forma bem prosaica: jogue o extrato nela e peça a categorização, a identificação de cobranças recorrentes e a lista de possíveis duplicidades por função. É trabalho de meia hora que viraria uma tarde.

O que dá para substituir

Agora a parte que motivou a notícia. Existem categorias em que construir sob medida passou a fazer sentido, e elas têm um padrão: baixa diferenciação técnica e necessidade específica da sua empresa.

Formulários internos e fluxos de aprovação. Painéis de indicadores que só leem dados que você já tem. Calculadoras de preço e simuladores comerciais. Controles internos que hoje vivem numa planilha compartilhada com gambiarra. Pequenas ferramentas de uso interno que a equipe pede e que nenhum fornecedor faz do jeito que você precisa.

O teste é simples: se a ferramenta não guarda dado crítico, não precisa de certificação, não é auditada por ninguém e serve só a você, é candidata.

O que não se toca

E aqui está o que a cobertura empolgada do tema costuma omitir.

Não substitua sistema de registro: ERP, folha de pagamento, emissão fiscal, meio de pagamento, prontuário, qualquer coisa que guarde dado de cliente em volume ou que seja auditada.

O motivo não é capacidade técnica. É que, quando você contrata um software consolidado, não está comprando apenas as telas. Está comprando conformidade com normas de privacidade, segurança da informação, estabilidade de infraestrutura, histórico de atualização legal e alguém a quem recorrer quando der problema. Um clone gerado rapidamente resolve uma necessidade pontual e não entrega governança nem escala.

No Brasil, acrescente um detalhe que decide: legislação fiscal e trabalhista muda o tempo todo. Software fiscal próprio significa que a sua empresa assumiu a responsabilidade de acompanhar cada mudança. Isso tem custo, e o custo é recorrente.

Mãos assinando um documento sobre a mesa durante renovação de contrato de software
Trocar assinatura por aplicação própria não significa economia automática: significa trocar quem paga a manutenção.

A conta que quase ninguém faz

Substituir um SaaS por aplicação própria não gera economia automática. Troca a natureza do custo.

O que entra na conta depois que a aplicação está pronta: hospedagem e infraestrutura, consumo de modelos de IA se houver, manutenção quando algo quebra, atualização quando a lei ou o sistema vizinho muda, backup e recuperação, e segurança.

E a pergunta mais importante, que não é técnica: quem mantém? Se a resposta for uma pessoa específica da sua equipe, você acabou de criar uma dependência pior que a do fornecedor, porque fornecedor tem contrato e pessoa pede demissão.

A assinatura que você cancelou tinha uma vantagem escondida: era problema de outro.

A terceira via, que rende mais

Para a maioria das empresas de médio porte, o melhor retorno não está em cancelar nem em construir. Está em renegociar com dado na mão.

O modelo de cobrança por assento está sendo questionado no mercado inteiro, a ponto de a IDC projetar que a precificação por usuário se torne obsoleta até 2028, e o Gartner estimar que 40% dos aplicativos corporativos tenham agentes de IA integrados até o fim de 2026.

Isso te dá poder de negociação agora. Chegue na renovação com o número exato de licenças em uso, aponte a redundância que você encontrou e peça o ajuste. A conversa muda completamente quando você diz “usamos 230 das 500 licenças” em vez de “está caro”.

Renegociação bem feita costuma render mais, mais rápido e com menos risco que qualquer projeto de substituição.

Cinco perguntas antes de cancelar qualquer coisa

  1. Quantas pessoas realmente usaram isso nos últimos 30 dias? Não quantas têm acesso.
  2. Essa ferramenta guarda dado que eu seria obrigado a proteger? Se sim, saia da ideia de substituir.
  3. Existe outra ferramenta aqui dentro que já faz isso? Consolidar é mais barato que construir.
  4. Se eu construir, quem mantém daqui a dois anos? Com nome, não com cargo.
  5. O que eu perco além das telas? Suporte, conformidade, atualização legal, integração.

O que eu recomendo na prática

A sequência que faz sentido para uma empresa de médio porte, em ordem de retorno e risco:

Primeiro, a auditoria e o corte do que não é usado. Retorno imediato, risco zero.

Segundo, consolidação de ferramentas redundantes e renegociação de contratos com dado de uso.

Terceiro, automação dos processos que hoje são feitos na mão entre os sistemas que você já tem. Normalmente é aqui que mora o maior ganho real, e tratei do método em como reduzir o operacional da empresa com IA.

Quarto, e só então, construção sob medida, e apenas nas categorias de baixa criticidade.

Quem inverte essa ordem, começando pelo quarto item porque leu uma notícia, costuma gastar mais e ganhar menos.

Se você quer fazer esse diagnóstico com apoio, incluindo o mapa do que cortar, do que consolidar e do que vale automatizar antes de construir qualquer coisa, fale comigo. Meu nome é Miguel Dendasck. E se o caso é capacitar a equipe para conduzir isso internamente, é o que fazemos nos cursos de IA da Dasckup.

Antes de decidir construir, vale entender também quanto custa automatizar com IA e como contratar fornecedor sem levar prejuízo.

A pergunta que a sua empresa precisa responder não é se a IA vai acabar com o SaaS. É quanto você está pagando, agora, por software que ninguém abre.

Sobre o autor

Miguel Dendasck é fundador e CEO da Dasckup, agência de marketing e tecnologia em Higienópolis, São Paulo, com mais de dez anos de atuação e mais de 180 clientes atendidos. Trabalha com automação e inteligência artificial aplicada a negócios, é autor do livro “A Empresa Autônoma” e criador do Método Dasckup. Também responde pela gestão da Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ISSN 2448-0959.

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