Uma pesquisa da Harris Poll para a Dataiku ouviu 500 presidentes de empresa pelo mundo e chegou a um resultado desconfortável: 94% deles afirmaram que um agente de inteligência artificial daria um conselho igual ou superior ao de pelo menos uma pessoa que hoje senta nas reuniões de diretoria.
Leia de novo. Não é sobre substituir o estagiário. É sobre a qualidade do conselho que o dono recebe antes de decidir.
E aqui está o ponto cego do mercado brasileiro: praticamente todo conteúdo sobre IA para empresas fala de operação, de automatizar tarefa, de ganhar tempo da equipe. Quase nada fala do uso que tem o maior retorno por hora investida, que é a IA ajudando o dono a pensar.
O Instituto IBM para Valor de Negócios ouviu, em 2026, 2 mil presidentes e executivos de 33 países. Resultado: 64% já se sentem confortáveis para tomar grandes decisões estratégicas apoiados em informação gerada por IA. No mesmo estudo, 83% dizem que o sucesso depende mais da adoção pelas pessoas do que da ferramenta em si.
Do outro lado, a 29ª pesquisa global da PwC com presidentes de empresa, que ouviu 4.454 executivos em 95 países, mostra que 56% ainda não identificaram benefício financeiro relevante vindo de IA. Apenas 12% conseguiram, ao mesmo tempo, reduzir custo e aumentar receita.
O estudo da Deloitte sobre o estado da IA nas empresas em 2026 explica boa parte disso: 37% das organizações usam IA de forma superficial, sem mudar nenhum processo existente.
Ou seja: muita gente abriu o chat, poucos mudaram como decidem.
Ler o próprio número. Você tem balancete, DRE, relatório de vendas e planilha de inadimplência. Provavelmente olha o resumo e confia na leitura de alguém. Suba os arquivos e peça a leitura crua: onde a margem caiu e por quê, qual cliente mudou de comportamento, qual despesa cresceu acima da receita. Não é mágica, é alguém com paciência infinita para cruzar o que você não tem tempo de cruzar.
Montar cenários antes de decidir. Vai contratar, abrir filial, mudar tabela de preço, trocar fornecedor. Descreva a situação com números reais e peça três cenários: o provável, o ruim e o péssimo, com o que precisaria ser verdade em cada um. Decisão de empresário costuma ser tomada com um cenário só na cabeça, o otimista.
Advogado do diabo. Esse é o uso que eu mais recomendo e o que menos gente faz. Apresente a decisão que você já tomou e peça o ataque: os cinco motivos pelos quais isso vai dar errado, o que um concorrente faria ao saber disso, qual premissa sua está frágil. Sua equipe raramente faz isso com você, por um motivo humano simples. A máquina não tem esse problema.
Pré-mortem. Peça para imaginar que já se passaram doze meses e o projeto fracassou, e para escrever a história de como fracassou. É uma técnica clássica de gestão de risco, e funciona muito bem nesse formato. O que aparece ali é a sua lista de riscos, redigida por você mesmo sem perceber.
Três regras práticas separam conselho útil de conversa genérica.
Contexto antes da pergunta. Pergunta sem contexto gera resposta de livro. Diga o porte da empresa, o setor, o faturamento aproximado, quantas pessoas, qual o seu papel, o que já tentou e o que não está disposto a fazer. A qualidade da resposta é proporcional à qualidade do briefing.
Exija as premissas na mesa. Peça sempre: liste as suposições em que essa recomendação se apoia e diga qual delas, se for falsa, derruba tudo. É a pergunta mais valiosa que existe nesse uso, e serve para humano também.
Peça o contrário. Depois de receber a recomendação, peça a defesa da posição oposta, com a mesma energia. Se a segunda versão for convincente, você não tinha uma decisão, tinha uma preferência.
Agora a parte incômoda, e ela é importante o suficiente para eu não deixar de fora.
Um levantamento com 200 executivos de alta direção no Reino Unido, entre fundadores, presidentes e diretores, encontrou um padrão preocupante: 62% já usam IA para a maioria das decisões do dia a dia, 70% admitem duvidar do próprio julgamento quando ele conflita com a recomendação do modelo, 46% confiam mais na IA do que no conselho de colegas e 65% percebem a decisão como menos colaborativa depois da adoção.
Esse é o risco real, e não é o risco que vendem por aí. Não é a IA errar. É você parar de confiar em você.
Modelos de linguagem são excelentes em produzir texto convincente, inclusive quando estão errados. Eles não conhecem o seu cliente, não estavam na reunião em que o sócio prometeu aquilo, não sabem que aquele fornecedor sempre atrasa em dezembro. Você sabe. Esse conhecimento não está em lugar nenhum além da sua cabeça, e é justamente ele que a recomendação bem escrita faz você ignorar.
E o indicador de alerta mais simples de todos: se você parou de discordar, parou de usar bem.
Alguns tipos de decisão continuam sendo inteiramente suas, e não por romantismo.
Decisão sobre pessoas, principalmente demissão e promoção, porque envolve histórico, contexto e responsabilidade que não estão em dado nenhum. Decisão que depende de confiança construída, como escolher sócio ou fechar parceria de longo prazo. E qualquer decisão em que você teria vergonha de dizer, se desse errado, que seguiu uma recomendação sem conferir.
A regra é simples: use para ampliar a sua capacidade de analisar, não para terceirizar a responsabilidade de decidir. A assinatura continua sendo sua.
Não precisa de projeto. Pegue a decisão que está na sua mesa agora, a que você vem adiando porque não tem com quem conversar.
Escreva o contexto completo, peça os três cenários, peça o ataque à sua posição e peça as premissas frágeis. Leve trinta minutos. Depois decida você.
Se depois disso você quiser estruturar o uso de IA na empresa inteira, e não só na sua cadeira, escrevi sobre como reduzir o operacional com IA e sobre como fazer a equipe usar de verdade.
Se quiser aprender a aplicar isso no seu negócio com acompanhamento, é o que fazemos nos cursos de IA da Dasckup. E se o caso é discutir a sua operação diretamente, fale comigo. Meu nome é Miguel Dendasck.
Empresário decide sozinho há séculos. A novidade não é ter com quem conversar às onze da noite. É lembrar que a decisão continua sendo sua.
Sobre o autor
Miguel Dendasck é fundador e CEO da Dasckup, agência de marketing e tecnologia em Higienópolis, São Paulo, com mais de dez anos de atuação e mais de 180 clientes atendidos. Trabalha com automação e inteligência artificial aplicada a negócios, é autor do livro “A Empresa Autônoma” e criador do Método Dasckup. Também responde pela gestão da Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ISSN 2448-0959.
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